Mirantes São Paulo

Guia do Nativo #06 – Edifício Martinelli

Martinelli é um gigante de concreto armado no centro de São Paulo e impressionava não só pelas dimensões como pela ornamentação e luxuoso acabamento, com tudo o que havia de melhor na época. Portas de pinho de Riga, escadas de mármore de Carrara, vidros, espelhos e papéis de parede belgas, louça sanitária inglesa, elevadores suíços, paredes das escadas revestidas de marmorite, pintura a óleo nas salas a partir do 20º andar, 40 quilômetros de molduras de gesso em arabescos.


Já ouviu falar daquele edifício meio rosado e super alto lá do centro de São Paulo, o que dizem ser assombrado, porque houveram suicídios e crimes no seu interior? É dele que eu vou falar neste post!

Abaixo você verá vários tópicos detalhados, mas se NÃO tiver tempo de ler e prefere OUVIR ou assistir em VÍDEO, deixei os primeiros tópicos para isso.

PODCAST

VÍDEO

Ainda indisponível.

Contextualização

Giuseppe Martinelli

Giuseppe Martinelli era um imigrante que veio ao Brasil na época da lavoura do café com o objetivo de trabalhar e fazer a vida aqui. Ele preimeiro desembarcou no Rio de janeiro, mas depois acaba vindo para Santos, onde ele passa a trabalhar de pedreiro, açougueiro e mascateiro, até que ele recebe a oportunidade de trabalhar como agente aduaneiro no porto de Santos, aí ele começa a se desenvolver nesta área de importação e exportação.

Após trinta anos morando aqui e com apenas um ano de comércio inter atlântico a Martinelli acumulou uma frota de 11 embarcações, era um empreendedor que gostava de tomar risco, em 1914 ele enviou um navio comercial para atravessar o Atlântico em meio à guerra sem nenhum seguro, nesta travessia ele ganhou muito dinheiro e também uma reputação de destemido.

Acabou detendo a representação da empresa de navegação estatal italiana a NGI, o que o deu uma condição quase que exclusiva no comércio marítimo naquele período, crescendo ainda mais com isso. O que chamou atenção de outros empresários italianos que viviam em São Paulo, como Ermelino Matarazzo que o julgou de traidor pela suspeita de ele fazer negócios com Alemães.

Ele foi inocentado por falta de provas, mas a sua imagem ficou desgastada na comunidade italiana. E com isso, Matarazzo virou o novo representante da NGI.

Sem a representação da NGI, em 1917 Martinelli compra embarcações sucateadas e as prepara para cruzar o Atlântico mesmo com a Guerra aumentando em proporções.

Em Julho de 1917 o seu navio “Lapa”, foi atingido por 3 tiros de canhão de submarinos alemães, mas mesmo assim ele continuou os seus negócios.

Por ser a única empresa disposta se arriscar no Atlântico Martinelli consegue benefícios geralmente concedidos por empresas estatais brasileiras. Neste mesmo ano 1917 ele transporta mais de 4.000 toneladas de café e cereais para Itália e traz mais de 27 mil toneladas de produtos da Itália para o Brasil.

Cada travessia faz ele lucrar fortunas, se tornando cada dia mais poderoso e com isso recebeu a honra de comendador, título que basicamente substituiu seu nome na época. 

Em julho de 1917 até 1919 explode uma greve feita pela classe trabalhadora por conta dos maus condições de trabalho e salário. Desde industriais, operários até os portuários e esses foram os primeiros passos para conquista dos direitos trabalhistas.

Em 1918 a guerra acabou deixando um saldo de milhões de mortos, com isso, outras empresas passam a operar no Atlântico e o Martinelli perde a exclusividade. Com a concorrência e as greves, Martinelli é forçado a inovar, ele viaja para Luca, sua terra natal, em busca de novas idéias.

Em 1923, Martinelli acompanha o esforço dos seus conterrâneos para reconstrução do país pós-guerra, ele apreciava as torres altas da Itália que serviam como defesa e que com tempo passaram a ser símbolos de poder, até porque ele cresceu às vendo e alimentando o sonho que não pode cumprir de ser arquiteto, era fascinado por palácios e pela construção. Decide então voltar ao Brasil para construir o seu legado.

Em 1924 Martinelli vendeu tudo, mantendo apenas a empresa de importação e exportação, com o dinheiro ele comprou o centenário Café Brandão, que era um dos pontos mais populares de São Paulo e em seguida ele manda derrubar.

História e Construção

Inspirado na arquitetura de Luca sua cidade natal, Martinelli inicia um projeto imobiliário no centro da cidade, uma torre com 12 andares, mas com uma fundação que aguentasse 30. Como não existia indústrias siderúrgicas no Brasil, o aço teve que ser todo importado. e para diminuir a quantidade deste material na construção ele utilizou basicamente concreto armado, e se tornou maior obra feita desta maneira no mundo. 

Na construção trabalhavam 600 operários e 90 artesãos neste projeto, os detalhes da fachada foram desenhados pelos irmãos Lacombe, que mais tarde projetariam a entrada do Túnel 9 de Julho.

Edifício Sampaio Moreira

A população pedia um prédio mais alto, então de 12 andares foi para 14, nesta mesma época (1924) o edifício Sampaio Moreira havia sido inaugurado pelo comerciante José Sampaio Moreira com o arquiteto Christano Stockler, era o maior prédio de São Paulo, tinha 14 andares, mas como estava em uma região mais alta, Martinelli aumentou os seus andares para ser ainda maior, de 14 foi para 18, e em 1928 o projeto chegou a 20 andares, foi quando o engenheiro William Fillinger da Academia de Belas Artes de Viena não quis se responsabilizar e saiu.

Italo Martinelli, seu sobrinho, redesenhou o projeto. O edifício chegou a 24 andares e o Martinelli queria mais 5. Até que a prefeitura embargou porque ele não possuía alvará para um edifício tão alto (as pessoas não tinham ciência da fundação), a notícia caiu na mídia, os pedestres até evitavam caminhar e até comprar imóveis próximos ao prédio, com medo dele cair.

Martinelli se mudou para o próprio prédio para provar a sua segurança aos outros, convocou Chateaubriand, um dos magnatas da comunicação de São Paulo com um plano, criar um teste estrutural que seria noticiado pelos jornais de Chateaubriand. Ele preparou uma coluna idêntica às do edifício e a cada 24 horas colocava uma tonelada de ferro sobre elas recriando as condições da obra, durante sete dias engenheiros e imprensa acompanham os testes, registrando alterações e possíveis rachaduras, e o edifício Martinelli se tornou assunto nas ruas de São Paulo. 

Vila Martinelli

Ele convidou diversos jornalistas ao topo edifício para acompanhar o final do teste e mostrar que o edifício aguentava 25 andares facilmente, após contratar também uma empresa de vistoria, ele recebeu o aval da prefeitura para construir. Finalmente seria o mais alto da América Latina, porém quando soube que o edifício do jornal A noite no Rio de Janeiro, que teria 95 m, ou seja, 5 m a mais do que o dele, não aceitou ficar para trás, utilizando materiais estruturais mais leves, construiu um palacete de cinco andares no topo do prédio, chamado de Vila Martinelli, com isso, alcançou 105 m de altura.

Edifício Martinelli desde a entrada na Rua S. João

Com 960 salas, 1.247 apartamentos e pesando 58 mil toneladas. Em 1934 o Martinelli é um gigante de concreto armado no centro de São Paulo e impressionava não só pelas dimensões como pela ornamentação e luxuoso acabamento, com tudo o que havia de melhor na época. Portas de pinho de Riga, escadas de mármore de Carrara, vidros, espelhos e papéis de parede belgas, louça sanitária inglesa, elevadores suíços, paredes das escadas revestidas de marmorite, pintura a óleo nas salas a partir do 20º andar, 40 quilômetros de molduras de gesso em arabescos.

O prédio possui reentrâncias, comuns nos hotéis norte-americanos da época, para ventilação e iluminação, e apresenta as três divisões básicas da arquitetura clássica: embasamento, corpo e coroamento. O embasamento é revestido de granito vermelho; no coroamento, falsa mansarda de ardósia. O corpo é pintado em três tons de rosa e recoberto de massa cor-de-rosa, uma mistura de vidro moído, cristal de rocha, areias muito puras e pó-de-mica, que fazia a fachada cintilar à noite. O revestimento tem três tons de rosa. O Martinelli inspirou Oswald de Andrade a chamar pejorativamente São Paulo de “cidade bolo de noiva”.

Entre os inquilinos do prédio, haviam partidos políticos como o PRP, jornais, clubes de futebol (Palmeiras e Portuguesa), sindicatos, restaurantes, confeitarias, boates, o Hotel São Bendo, o cine Rosário e a escola de dança do professor Patrizi. 

Porém, com a quebra da bolsa de Nova York os negócios de importação e exportação de Martinelli despencavam e ele quebrou, precisando penhorar o Edifício Martinelli para o Istituto Nazionale di Credito per il Lavoro Italiano All’Estero, ligado ao governo da Itália, que fez possível a finalização da obra. Porém, falido, ele não podia pagar o penhor e acabou perdendo o prédio para este banco, e retorna para o Rio de Janeiro onde ele tem a oportunidade de explorar 10% das minas de carvão na época e acaba aos poucos recuperando a sua riqueza.

Quando o Brasil entra na Segunda Guerra Mundial contra o eixo formado por Alemanha, Japão e Itália, o edifício é confiscado pelo governo brasileiro. Foi leiloado e arrematado pelo banco América que fizeram um lance muito mais alto que o Martinelli (que sim, tentou recuperar o prédio). se transformou em um condomínio de apartamentos que foi por um tempo batizado como edifício America.

Nas décadas de 60 e início da de 70, o prédio entra em rápida decadência principalmente por conta da falência do hotel, e acaba se tornando uma verdadeira favela vertical, ocupado por famílias de baixa renda (o Martinelli era uma das poucas opções de moradia barata no centro), casas de prostituição, clinicas de abortos clandestinas. O cenário é de um verdadeiro filme de terror. 

Nos corredores compridos e sombrios, onde crianças brincavam em meio à promiscuidade, espreitavam ladrões e prostitutas. Os elevadores pararam de funcionar; o lixo passou a ser jogado nos poços de ventilação e fosso, as montanhas de lixo atingiam o 5º andar e o prédio cheirava a morte.

Revitalização

Então, em 1975 o prefeito Olavo Setúbal decidiu revitalizar o edifício e desapropriou o prédio com a ajuda do exército para retirar os moradores mais renitentes. 

O responsável pelas obras foi o Engenheiro Walter Merlo, chefiando 640 operários. Os sistemas hidráulico e elétrico foram totalmente substituídos, novos elevadores foram instalados, a fachada foi limpa com jateamento de areia. Um moderno sistema de prevenção a incêndios foi instalado, tornando o Martinelli um dos mais seguros da cidade. Em 1979 foi reinaugurado, sendo ocupado por diversas repartições municipais, como a Emurb e a Cohab.

Edifício Martinelli, vista desde a rua São João

Ironicamente, o Martinelli foi recuperado no momento em que o centro começava a dar sinais de degradação. A partir de 1981 a economia do país entrou em crise e a cidade sentiu o baque. Os prédios históricos foram abandonados à própria sorte, a segurança se deteriorou. O Martinelli foi um dos poucos pontos que passaram pela crise.

Manteve a imponência entre os inúmeros prédios ao redor, passou por absolutamente tudo, crises financeiras, guerras mundiais, revoluções e decadência da região. Foi abandonado, convertido em cortiço, pichado, maltratado e no final exaltado, quer dizer, restaurado.



Atualmente

Hoje em dia o Martinelli éum prédio da prefeitura que tem em suas dependências 70% Secretaria de habitação, a coordenadora de habitação, a secretaria da subprefeitura, secretaria de urbanismo e licenciamento, e os outros 30% é comercial, com as lojinhas, casas de cambio, loja de caneta que funciona desde a década de 50 e o café Martinelli.

Curiosidades assombrosas

  • Ossos humanos foram encontrados em um fosso do prédio e há relatos de que pessoas cometiam crimes, como o que teve grande repercussão nos anos 60, o do menino Davilson, que foi violentado, estrangulado e jogado no poço do elevador, e assassino nunca foi encontrado. Pessoas também se suicidavam neste fosso e por toda essa impressão, dizem que funcionários escutavam vozes e gritos de supostos fantasmas.
  • Em meio à miséria e à degradação humana, uma igreja evangélica funcionava no 17º andar, atraindo pessoas que já não tinham esperança na vida, tentando recuperá-las e dar um motivo para continuar.

Visitação

Entrada da rua São João, 35

O edifício continua chamando muita atenção no centro de São Paulo e é um mirante imperdível, além de ser uma opção gratuita. De lá você terá uma vista 360 de São Paulo.

Ao lado do edifício, você poderá avistar o Farol Santander, que é uma opção de turismo muito interessante que foi recentemente reformado.

A visitação ao Martinelli havia sido interrompida em 2017 por conta de casos de suicídios, mas voltou a funcionar neste ano de 2019, então não perca esta oportunidade.

Adesivo de visitação

A fila fica na entrada localizada na Av. São João, 35. Uma pessoa sai nos horários previstos para chamar as próximas 15 pessoas para preencher um pequeno formulário lá dentro (terão que entrar em uma outra fila rapidinha) e depois de preencherem, ganham um adesivo da visitação.

Horários de visitação e regras

Os horários de visitas são:

  • Seg. a sex.: 11h, 13h, 15h30 e 17h30;
  • Sáb. e dom.: 11h. 13h, 14h30, 15h30, 16h30, 17h30 e 18h30;

Cada visita dura em torno de 40 minutos, e são GRATUITAS e não esqueça de levar o documento!

Como Chegar

Além da malha ferroviária, a região possui muitos pontos de ônibus, terminais como o terminal das Bandeiras e o Dom Pedro, clique nos pontos de ônibus do mapa abaixo para verificar os ônibus que passam e se divirta. Ah, uma atenção especial para os desvios de trafego que acontecem nos domingos por conta da abertura das ruas para pedestres e bicicletas.

O que eu recomendo é ir de metrô, porque fica a 140 m da estação São Bento, como você pode ver no mapa abaixo.

Infelizmente, até o momento desta publicação, não existe a cobertura de bicicletas por demanda nesta área, porém creio que bem em breve haverá.

Se você for de carro, existem diversos estacionamentos que funcionam durante a semana, já no final de semana a demanda diminui e pode ser que encontre alguma dificuldade.

Dica do Nativo

  • Por favor, já que está nesta área, aproveite para visitar o Patio do Colégio, o Viaduto do Chá, o Theatro Municipal e o Vale do Anhangabaú.
  • Nesta região existem bares tradicionais como o Seu Jorge e o Boteco Central que além da localização, conta com uma decoração impecável e petiscos saborosos!
  • A mercearia que foi o primeiro comércio declarado patrimônio histórico imaterial em São Paulo, a Casa Godinho, você encontra doces deliciosos, salgados e um bacalhau que fez história.
  • Super recente, doce ao paladar e salgada ao bolso, a Casa Mathilde, lá você encontrará doces portugueses e um ambiente bem decorado, está sempre cheio porque é realmente boa. Vale a pena gastar um pouquinho.

Lembrando que todos estes lugares ficam a no máximo 4 minutos do Martinelli!!!

Contatos

Site: prediomartinelli.com.br/

E-mail: condominio@prediomartinelli.com.br 

Telefone: +55 11 3116-2777

Referências

https://www.youtube.com/watch?v=RzK2kZHLhcI acesso em 25/06/2019 21:53

http://prediomartinelli.com.br/fotos/fotos.htm acesso em 25/06/2019 às 22:21

https://guia.folha.uol.com.br/passeios/2019/05/apos-dois-anos-fechado-martinelli-reabre-terraco-para-visitacao.shtml acesso em 27/06/2019 às 11:10

http://casagodinho.com.br/quem-somos acesso em 27/06/2019 às 11:24

http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=168319_02&pagfis=9641&url=http://memoria.bn.br/docreader#

Esperamos que aproveite ainda mais a sua visita e se tiver algum comentário, manda uma mensagem para nós no InstagramFacebookTwitter ou pelo e-mail guiadonativo@gmail.com.

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